Sala de imprensa

Mario Garnero: Brasil e China se descolam

Mario Garnero 23/02/2015 13:54

O político e escritor francês Alain Peyrefitte, com grande antevisão, publicou em 1973 o ensaio 'Quando a China Acordar o Mundo Tremerá' (título traduzido livremente).

Suas previsões, pautadas por visitas sistemáticas ao país, deixam claro que tão logo houvesse uma liberalização política e uma descentralização do sistema econômico, com uma preponderância do indivíduo e da propriedade privada, o grande salto para o futuro previsto por Mao Tse-tung tomaria uma estrada sem retorno. O impulso veio com Deng Xiaoping, em 1979.

Em 1981 liderei uma delegação de empresários e jornalistas a Pequim, Xangai e Cantão. Pequim tinha apenas um hotel que servia de albergue e, ao mesmo tempo, de escritórios para as primeiras firmas empresariais que para lá se dirigiam. 

A cidade era uma sucessão de tapumes cobrindo áreas decaídas que haviam sido arrasadas. As ruas eram tomadas por milhares de homens e mulheres, que, vestidos de azul, perambulavam sem empregos pela cidade.

A mesma cena se repetiu em Xangai e Cantão. Para comprar uma bicicleta, um chinês teria de adquirir um vale e esperar até que a produção estatal lhe permitisse recebê-la. A China era a 7ª economia do mundo à época; o Brasil, a 16ª. 

Em Pequim, fui encarregado pelo ministro de Comércio de entregar ao governo brasileiro uma mensagem -o reconhecimento do Brasil como nação mais favorecida para o intercâmbio comercial e financeiro entre os dois países. Com esse sinal, fiz o primeiro escritório de uma empresa brasileira em Pequim.

Esse longo prólogo serve para que possamos fazer um paralelo com o Brasil e as trajetórias não convergentes que as duas nações percorreram até hoje.

A China ultrapassou, pelo critério de paridade do poder de compra, os EUA e será, em breve, a primeira economia do mundo. O Brasil, agora a sétima economia do mundo, será ultrapassado pela Índia e pode voltar a ser a 9ª ou 10ª em curto prazo. A China cresceu, em média, 10% ao ano nos últimos 24 anos e sua encomia é agora 25 vezes maior que em 1990. A do Brasil é cinco vezes maior.

A pergunta que surge é a seguinte: por que existem tais diferenças na velocidade de crescimento e de substância dessas economias, além de perdas relativas de poder político e de influência internacional, sejam elas políticas ou financeiras?

Uma simples análise mostra a China caminhando para ser o centro econômico, político e financeiro da Ásia, suplantando o Japão, ampliando seu poder na África, comprando as empresas de ponta na Europa e dominando o cenário dos chamados Brics, no comércio e na área financeira, com US$ 4 trilhões de reservas.

Qual o segredo, além dos possíveis questionamentos sobre seu sistema político? Sem dúvida, essa resposta passa pela continuidade da política econômica, mantida e aperfeiçoada por meio dos sete planos quinquenais, com uma enorme flexibilidade, pragmatismo e visão estratégica dos objetivos nacionais definidos e perseguidos.

Há pouco, a imprensa chinesa noticiou um discurso do vice-premiê Wang Yang no qual ele disse que 'a China e os EUA são parceiros econômicos globais, mas os EUA são o guia do mundo. Eles já têm o sistema principal e suas regras; a China está disposta a se juntar a esse sistema e a respeitar essas regras e espera atuar de formar construtiva'.

A lição que fica é a de que somos um país lento, com grandes centros de excelência na agricultura, na ciência e na indústria, com poder de inovar, como no uso do etanol. No entanto, ao mudarmos com os ventos a biruta do nosso projeto nacional, desperdiçamos meios e nos transformamos em um país com produtividade negativa.

Perdemos velocidade no crescimento e no bem-estar. Os números, que não admitem contestação, indicam que temos novamente que nos integrar à cadeia mundial de progresso material e, por consequência, social. E o caminho para essa integração passa por medidas que aumentem a produtividade, promovam maior abertura econômica, criem novas infraestruturas e gerem um novo padrão de qualidade na educação profissional.

MARIO GARNERO, 77, é presidente do grupo Brasilinvest e presidente do Fórum das Américas e da Associação das Nações Unidas Brasil (Anubra)

Folha de S. Paulo